sábado, 2 de maio de 2015

Quem são as mulheres que, depois da maternidade, decidiram abraçar causas e ajudar outras mães a lutar por seus direitos

Toda mãe é ativista do próprio filho. Todas elas lutam por pequenas conquistas, todos os dias. As escolhas começam na gestação – que tipo de parto, que valores lhe serão transmitidos – e não param nunca mais. Nos últimos anos, as redes sociais e os aplicativos parasmartphones uniram milhares de mães brasileiras em torno de causas comuns – que se relacionam entre si pela ideia de umamaternidade consciente e socialmente ativa. Neste Dia das Mães, escolhemos quatro mulheres que decidiram lutar pelo direito de outras mães. Até mudanças na legislação elas conseguiram. Semradicalismo ou exageros, elas estimulam o debate e mostram os caminhos de uma maternidade cidadã.
"Importei derivado de maconha para tratar minha filha" - Katiele Fischer,  mãe de Júlia e de Anne (foto) (Foto: Adriano Machado/ÉPOCA)










"Importei derivado de maconha para tratar minha filha"
Katiele Fischer, mãe de Júlia e de Anne (foto)

CAUSA
tratamento medicinal com Cannabis
ATIVISMO
desde 2013 l Distrito Federal

"Ninguém gosta de viver na ilegalidade. Por três meses, eu e meu marido importamos clandestinamente um medicamento à base deCannabis (derivado de maconha) para tratar a epilepsia de Anne. Ela teve a primeira convulsão com 45 dias de vida – ninguém sabe o que é ter um bebê nos braços revirando os olhos. Anne é portadora da síndrome CDKL5, incurável e degenerativa. Tinha regredido tanto em função das convulsões, que aconteciam a cada duas horas, que definhou. Com 5 anos, pesava o mesmo de uma criança de 2. Com o novo remédio, as convulsões se reduziram a duas ao dia. Para ajudar outras famílias, tornamos a causa pública. Conseguimos o direito de importar o remédio, criamos jurisprudência para outras famílias e fizemos uma campanha. Precisamos desburocratizar os processos. Essas famílias já sofreram muito. Há pouco, recebi a mensagem de uma mãe que começou a usar o medicamento na filha com deficiência. A filha, ela disse, tem 43 anos e, graças ao medicamento, conseguiu, pela primeira vez, ficar uma semana sem fazer xixi na fralda. Mães como eu entenderão o valor dessa conquista."

"Fui empurrada a pensar no consumismo infantil" - Debora Regina Diniz, mãe de Pedro Gabriel (de óculos), João Felipe e Ana Cecília (Foto: Alex Almeida/ÉPOCA)












"Fui empurrada a pensar no consumismo infantil"
Debora Regina Diniz, mãe de Pedro Gabriel (de óculos), João Felipe eAna Cecília

CAUSA
consumo consciente
ATIVISMO
desde 2012 l São Paulo
"Todas as novas mães passam pelas mesmas fases, apelidadas por mim de os ‘5Ps’: parto, peito, papa, palmada e publicidade. Fui empurrada pelo primeiro filho a pensar em consumismo infantil quando ele falou: ‘Mãe, compra esse?’. Todo dia ele me pedia um brinquedo novo,  como se fosse normal comprar tudo o que aparece na televisão ou na escola. É uma concorrência desleal com os pais. Percebi que não adiantava cuidar do assunto dentro da minha casa, precisava olhar para o macro. Assim surgiu o primeiro grupo nas redes sociais. Em 2012, fundamos o Movimento Infância Livre de Consumo, com mais de 97 mil seguidores. Somos três administradoras e vários colaboradores com o compromisso de levar uma nova reflexão e gerar questionamentos para as mães. Afinal, tudo o que acontece é culpa nossa. Se o meu filho troca o cacho de uva por uma bolacha recheada na escola, tudo bem. Isso é a vida em sociedade. Mas acredito que os pais precisam estar atentos, conversar e ensinar os filhos a escolher melhor. É uma lição para a vida toda."

"Sem engajamento pelo autismo nada muda" - Berenice Piana, mãe de Diego, Shahla e Daian (foto) (Foto: Pilar Olivares/Hilaea Media/ÉPOCA)












"Sem engajamento pelo autismo, nada muda"
Berenice Piana, mãe de Diego, Shahla e Daian (foto)

CAUSA
direito dos autistas
ATIVISMO
desde 2005 l Rio de Janeiro
"Com 2 anos, Daian, meu caçula, parou de chorar e de sorrir. Não interagia com os irmãos. Vivia em cantos da casa. Nunca mais voltou a ser o mesmo. Visitei tantos consultórios médicos quanto pude em um ano. Minhas queixas, diziam, eram sem fundamento. Mas eu sabia como ele era antes. Comprei livros de psicologia e psiquiatria. Rapidamente, compreendi que meu filho era autista. Aos 6 anos, veio o diagnóstico médico. Com tratamentos específicos, passou a dormir a noite inteira – antes gritava madrugada adentro –, deixou de provocar situações que o colocavam em perigo, como da vez em que se jogou contra uma porta de vidro. Como poderia passar por tudo isso sem pensar nas outras mães que, como eu, enfrentavam uma realidade invisível? Comecei a dar palestras, engajar as mães e, em 2009, fui ao Congresso, em Brasília. Era o momento de pensarmos numa lei. Nós, pais de autistas, lotamos as audiências e as caixas de e-mails dos parlamentares – eram mais de 1.500 e-mails por dia. Escrevemos na minha casa a primeira lei para autistas, que reconheceu a deficiência. Em 27 de dezembro de 2012, às 23h45 – três anos e seis meses depois do início da luta –, a lei foi sancionada. A lei leva o meu nome, mas é de todas as mães."

"Não aceito  machismo nem violência contra  a mulher" - Ligia Moreiras Sena, mãe de Clara (Foto: Cassiano Ferraz/ÉPOCA)
















"Não aceito machismo nem violência contra a mulher"
Ligia Moreiras Sena, mãe de Clara

CAUSA
feminismo e maternidade
ATIVISMO
desde 2011 l Santa Catarina
"A gestação provocou uma crise na minha carreira. Tinha terminado o pós-doutorado em farmacologia quando ouvi depoimentos de amigas que não tinham sido bem atendidas durante a estadia na maternidade, inclusive no parto, a tal  violência obstétrica. Como cientista, decidi investigar. As pesquisas me levaram a São Paulo, na primeira audiência pública sobre violência no parto. Naquela época, tinha um blog para falar de maternidade, no anonimato. Depois de ouvir os relatos, que mostravam como os maus-­tratos eram comuns no sistema de saúde, meu caminho de cientista encontrou o de ativista. Voltei para a universidade. Dessa vez, para fazer um doutorado sobre  saúde coletiva. Pelo blog Cientista que Virou Mãe, falo para mais de 7 mil pessoas todos os dias. Descobri que não dava para falar de violênca obstétrica sem falar de violência contra a mulher e o machismo. O blog virou feminista.  Desde que a Clara nasceu, não aceito mais comentários machistas ou desvalorização de gênero. Afinal, pus   uma mulher no mundo – e isso não é pouca coisa. Meu desejo é que esse debate alcance toda a sociedade."

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