sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Autismo na adolescência: o que esperar?

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E de repente, não mais que de repente, ela bateu em minha porta. Não apenas bateu como também entrou sem pedir licença e sem precisar de convite. É verdade que sua chegada não era totalmente inesperada. Eu sabia que em algum momento, mais cedo ou mais tarde, nós nos encontraríamos – só não pensei que aconteceria tão rápido.
Sua presença pode provocar desde alterações sutis e contornáveis a mudanças extremamente radicais e contraditórias. Sua estadia, independente do tempo, deixa marcas e produz mudanças inegavelmente inerentes e imprescindíveis para o desenvolvimento.
A esta altura, vocês já descobriram a personagem central do post de hoje: A ADOLESCÊNCIA!!!
A fase tenebrosa que nenhum ser humano escapa…
A palavra “adolescência” tem origem etimológica no latim, onde ad = “para” e olescere = “crescer”. Assim sendo, significa literalmente “crescer para”. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é o período que se estende dos 10 aos 19 anos de idade. Pode ser dividida em duas fases: a inicial (de 10 aos 14 anos) e a final (que compreende a faixa dos 15 aos 19 anos). Entretanto, o nome que melhor define esta senhora foi criado pela sabedoria popular e é o apropriado vulgo “aborrescência”. Pessoalmente, como filha, recordo-me do quão “chata” e teimosa me tornei nesta fase.
Agora, na qualidade de mãe, tive a oportunidade de experimentar o reverso da moeda. E confesso que nutria um temor enorme em relação ao nosso primeiro encontro, que aconteceu há quase 7 anos atrás. No início, nossas divergências foram mínimas e quase imperceptíveis. Com o decorrer do tempo, os obstáculos foram se transformando em verdadeiras muralhas – que nos separavam e pareciam ser impossíveis de ultrapassar.
Estes momentos foram, indubitavelmente, os mais difíceis de nossa convivência e eu pensei, sinceramente, que havia “perdido” o amor de meu filho. Meu menino, outrora carinhoso, amigo e sorridente, deu lugar a um rapazinho constantemente carrancudo, contraditório e com uma disposição bélica para discutir “full time”. Parecia que meu verdadeiro filho havia sido abduzido e que outro, um clone mal humorado, havia sido deixado em seu lugar, tamanha a intensidade grotesca da mudança. Não importava o que eu dissesse ou sobre o que estivéssemos conversando, ele era contrário a qualquer opinião que eu emitisse, fosse ela qual fosse.
Foi dolorido compreender que, da noite para o dia, deixei de ser a MÃE (heroína) que sabia tudo, para ser a mãe (com letras minúsculas mesmo) retrógrada, ultrapassada e que não sabia nada. Foram anos difíceis que exigiram uma paciência descomunal, que nem sempre eu conseguia ter… Quando esta etapa chegou ao fim, respirei aliviada!!! Nós havíamos conseguido superar! Novamente nos tornamos mãe e filho, companheiros e amigos. Meu filho cresceu e a adolescência, apesar de todos os pesares, deixou o legado maior da maturidade, tendo contribuído para formar um homem justo, sábio, solidário e amoroso.
Feliz com sua partida, não imaginei que, na verdade, esta despedida não era definitiva. Demorei a compreender que a adolescência tinha deixado meu filho sim, mas APENAS para tomar conta de meu outro filho. Na verdade, ela saiu do quarto do primogênito para se instalar com TODOS os seus pertences no quarto do caçula!!!
Mas JÁ??? Meu menino, apesar de ter 11 anos, é tão infantil e ingênuo… Cruel e insensível, a adolescência foi incapaz de respeitar e entender que meu menino AINDA acredita em Papai Noel… A Mãe Natureza, ignorando o autismo, segue seu curso e assim como qualquer outro menino de 11 anos, ele já se prepara para o processo.
Será que meu menino está pronto para a enxurrada de mudanças físicas, para o crescimento acelerado e repentino e todas as complexas mudanças internas? Será que EU estou pronta para isso???
Como já mencionei, não é a primeira vez que enfrentarei a adolescência. Mas desta vez é muito diferente… Meu caçula tem autismo, e não sei como será sua reação nesta nova etapa de seu desenvolvimento. Demorei um pouco a perceber que ele estava entrando na pré-adolescência. Atribuí ao Autismo o enfrentamento, o questionamento incessante e a teimosia que ele vinha apresentando há algum tempo. Imaginei que sua oscilação de humor fosse decorrência de mais uma “descida” da montanha-russa. Acreditei que vivíamos, apenas, mais uma fase difícil trazida pelo autismo.
Não compreendi, ou não quis compreender, que meu filho crescia bem na frente de meus olhos… Talvez porque me assuste pensar em seu crescimento, pois seu crescimento traz o futuro, que tanto temo e que me assusta.
Sei que, assim como o autismo pode maximizar todas as sensações e sentimentos, agregando uma intensidade infinitamente maior à tudo aquilo que é vivido e sentido pelo autista, é bem provável que a adolescência receba uma dose extra de dificuldades. É possível que sua passagem por esta fase seja mais espinhosa, tanto para ele quanto para mim. Mas pode ser também que eu me surpreenda e que esta etapa seja muito mais tranquila para ele do que foi para seu irmão.
É fato que NÃO sei o que me espera…
Mas embora não saiba ao certo o que vem pela frente, tenho duas grandes certezas:
A primeira é que estarei ao seu lado, haja o que houver, assim como estive ao lado de seu irmão;
E a segunda é que nenhuma dificuldade, nem mesmo a temida adolescência é páreo para o AMOR infinito que une uma mãe ao seu filho.
Denise Aragão

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