sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Autismo e férias: uma combinação explosiva

"Autism" "Autismo" "papo de mãe" "mãe" "azul"
Se o título lhe soou estranho, provavelmente você não é mãe ou parente de uma criança ou jovem com transtorno do espectro autista. Quem vive e convive com autistas sabe muito bem o quanto a chegada das férias pode ser desastrosa para eles. A “quebra” da rotina, sem dúvida, é a maior responsável por este abalo.
Pessoas com autismo, em sua esmagadora maioria, precisam de rotina. Saber exatamente o que vai acontecer, passo a passo, no seu dia, traz o conforto e a sensação de segurança que tanto necessitam. Assim sendo, as férias (sejam escolares ou terapêuticas) podem sim representar uma “ameaça” à rotina.
Muitos de nós, comumente, nos queixamos que estamos cansados e entediados com a rotina (seja ela de que ordem for). A mesmice no trabalho, na profissão, no relacionamento e até nas mais simples atividades do nosso dia a dia costuma ser exasperante e extenuante para muitos.
Não à toa,  a chegada das férias é vista como um bálsamo, alívio necessário e revigorante para que possamos “recarregar” as baterias para o novo ciclo que, em breve, irá se iniciar. “Mal posso esperar pelas férias!”  é uma expressão corriqueira para as mães, em geral. Ter um dia inteirinho livre para fazer o que bem entender, sem hora para acordar, é o sonho de consumo de 10 entre 10 mães de crianças neurotípicas. Viajar, ir à praia, ao cinema ou andar de bicicleta são algumas das muitas opções de lazer que estão disponíveis no período das férias.
Entretanto, o cenário que  nós, mães de autistas, enfrentamos é muito diferente. Para um autista pode ser devastador ter suas atividades diárias interrompidas, ainda que por um curto espaço de tempo. E “encontrar” outras atividades para preencher o dia tampouco é uma tarefa fácil. Muitos podem apresentar verdadeira aversão a novas situações. Desta forma, o simples fato de retirá-los de casa para algo novo pode se transformar em um verdadeiro caos, tanto para os filhos quanto para as mães.
Na outro extremo da situação, encontramos autistas que querem MUITO participar, se envolver, ampliando sua socialização e interação com seus pares. Entretanto, ainda assim é muito difícil, pois muitos não conseguem se adequar, e o sonho de interagir com os demais acaba se tornando um pesadelo, potencializando a frustração. Sem alternativas, nossas crianças e jovens com TEA acabam ficando dentro de casa, fato que está longe de resolver o problema.
“Isolados” dentro de casa, se tornam alvos fáceis da ansiedade fazendo com que comportamentos repetitivos e estereotipias  se intensifiquem, gerando ainda mais ansiedade e agitação. E nós mães? Com nos sentimos assistindo este quadro angustiante?
O primeiro sentimento que toma conta de nossos corações é a impotência. A sensação de “estar com as mãos atadas” é horrível e torturante. Daí em diante, é apenas um passo para também sermos tomadas pela depressão. Filhos agitados e desorganizados, mães deprimidas e extenuadas costumam ser o saldo mais comum das férias. Embora não seja uma tarefa das mais fáceis, precisamos aprender a nos “blindar” em ocasiões como estas. Procurar manter a calma e o autocontrole é fundamental para enxergarmos além das dificuldades e encontrar soluções.
Para organizar nossos filhos,  é vital anteciparmos a chegada das férias, através de estórias, quadros ou esquemas visuais, por exemplo. Autistas compreendem com muito mais facilidade o que lhes for explicado com a utilização do apoio visual.
Para preencher o dia a dia, uma boa dica é “usar” os interesses restrito-repetitivos de nossos filhos a seu favor. Se seu filho tem obsessão por dinossauros, ou costuma passar horas enfileirando carrinhos, atribua funções a estas preferências. Crie brincadeiras utilizando seus temas preferidos nas quais você também possa participar.
Se seu filho tem o hábito de balançar o tronco, leve-o para brincar em um balanço, por exemplo. Seu filho adora correr de um lado para o outro, ininterruptamente? Experimente brincar de pega-pega. Brincadeiras como o pega-pega e o esconde-esconde não possuem regras muito elaboradas e apresentam reforço visual adequado e propício para autistas.
Sei que não existe fórmula, muito menos receita para dar certo. Cada autista é único, com características e necessidades próprias. O que funciona para um pode não funcionar para outro. Também sei que as férias costumam ser a época do ano em que ficamos mais esgotadas tanto física quanto emocionalmente. Mas elas acontecem semestralmente.
Assim sendo, que tal tentarmos transformar o próximo período de férias em um momento mais tranquilo e, quem sabe, prazeroso para nós e nossos filhos?
Denise Aragão

Nenhum comentário:

Postar um comentário