terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ter ou não o segundo filho?

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Uma das grandes dúvidas que assolam as mães de autistas que têm apenas um filho é o fato de tentar ou não outra gravidez.
Em razão disto, tenho recebido muitas mensagens solicitando que este tema fosse abordado aqui no Papo de Mãe.
Não posso ofertar minha experiência pessoal neste assunto, uma vez que o autismo entrou em nossas vidas através de meu filho caçula. A diferença de idade entre meus filhos é de quase cinco anos. O mais velho já era independente em inúmeras atividades da vida diária quando o irmão nasceu. Esta, portanto, é a minha vivência familiar!
E, como sempre digo, é muito difícil dizer com exatidão o que faríamos se estivéssemos em determinada situação, porque a diferença entre imaginar uma situação e vivê-la é ENORME!!!
Vejamos o que as estatísticas fornecidas pelas pesquisas dizem a respeito:
- Pesquisa publicada em 27/08/2013 no jornal científico JAMA Pediatrics apontou para o fato de que os irmãos mais novos de crianças dentro do espectro autista apresentam um risco sete vezes maior de também desenvolverem TEA;
- Estimativas sugerem que as chances de se ter outro filho autista podem variar entre 8 a 10%. É um risco considerado alto se levarmos em conta que este índice cai para 1% entre a população em geral. (Dr. Estevão Vadaz, coordenador do Projeto Autismo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas);
- Em junho de 2014, um estudo conduzido pelo Dr. Neil Risch, Diretor do Instituto de Genética Humana da Universidade da Califórnia, foi considerado a primeira pesquisa a avaliar se o fato de já ter um filho autista influenciaria na decisão dos pais em ter um outro filho e quão significativa poderia ser esta influência.
O resultado da pesquisa, que foi publicada no mesmo periódico JAMA, não foi surpreendente, pois reproduziu uma realidade que já estamos habituados a encontrar na grande maioria das famílias com filhos autistas. Casais com um filho autista têm 33% menos probabilidade de ter outro filho, em comparação com famílias sem filhos autistas.
Mas estas estatísticas, apesar de serem relevantes e extremamente significativas, são apenas números. E números são frios, impessoais e desprovidos de emoção! Decisões não podem e nem devem ser tomadas embasadas apenas em pesquisas.
Existem muitos outros aspectos que devem ser levados em conta no momento de se decidir por uma nova gravidez. A questão financeira, por exemplo, é um dos aspectos que produz um impacto significante nesta decisão.
Transpondo estes números para a nossa realidade, torna-se claro que a grande maioria das famílias tem um receio óbvio, justificado e facilmente compreensível de ter outro filho e esta criança nascer dentro do espectro, assim como o irmão. As chances não são enormes, mas tampouco podem ser consideradas desprezíveis.
Especialistas em autismo recomendam que os casais interessados em ter outro filho devem consultar um geneticista, onde poderão mapear, de forma mais detalhada, estas possibilidades.
Mas em meu entendimento, o ponto crucial nesta decisão de ter outro filho é a RAZÃO que motiva esta nova gravidez. É natural e extremamente compreensível que nossa primeira preocupação, após o diagnóstico, seja o futuro daquele filho com autismo. Esta preocupação nos acompanhará para sempre…
Como mães que somos, é praticamente IMPOSSÍVEL não pensar no que será de nossa cria quando aqui não mais estivermos…
E é natural também que uma nova gravidez seja vista como a solução para este problema.
Não, NÃO é errado e muito menos condenável pensar desta forma. Acredito que também pensaria assim, se meu primeiro filho fosse autista. E seguindo esta linha de raciocínio, a observação que faço agora NÃO é uma crítica, constituindo apenas uma ponderação.
E se este filho, quando crescer, NÃO quiser se tornar um “cuidador” de seu irmão, seja por que motivo for? Será que não é justo que ele tenha chance de escolher seu próprio futuro? Seria justo ser gerado, nascer e crescer com esta responsabilidade? Não sei. Sinceramente, não sei…
Mas a grande verdade é que ter outro filho NÃO é, nem de longe, garantia absoluta de ter um cuidador para o filho mais velho. A vida toma rumos e caminhos inimagináveis!!!
E o próprio autismo nos mostrou e mostra, todos os dias, que fazer planos na certeza de que estes irão se concretizar seja, talvez, a melhor forma de se frustrar!
Penso que gerar outro filho com a ÚNICA finalidade de ser um cuidador, projetando neste ser tamanha responsabilidade, não é justo com nenhum dos envolvidos neste relacionamento familiar.
E este é meu pensamento em relação à minha própria família!
Apesar de todo o meu ENORME receio em relação ao futuro do João, faço um esforço diário para internalizar a ideia de que meu primogênito é livre para escolher e decidir seus próprios caminhos…
Além disso, existe a possibilidade de a nova criança nascer dentro do espectro. Tenho conhecimento de pouquíssimos casos de famílias com dois filhos autistas e a grande maioria de famílias que tentou outros bebês teve crianças com desenvolvimento típico. Mas aí está o grande “X” da questão. As chances são pequenas, mas existem! Genética é quase que uma loteria!
Em meio a todos estes aspectos, o que a meu ver, faz TODO sentido e DEVE ser o motivo de uma nova gravidez, é o fato de o casal DECIDIR ter outro filho porque quer MUITO uma nova criança. E ponto!
Ciente da possibilidade de a criança nascer também no espectro e, principalmente, consciente de que ela NÃO terá a obrigatoriedade de ser um cuidador para seu irmão.
Vale a reflexão: queremos outro filho ou apenas objetivamos um cuidador para o primeiro filho?
Como reagiríamos se esta criança estivesse dentro do espectro? Nos frustraríamos com esta criança que não correspondeu às expectativas que criamos para ela? Você está disposta a enfrentar estas possibilidades?
Caso afirmativo, siga em frente e seja feliz com sua nova gravidez! Curta cada momento mágico deste processo. Vibre com a chegada de seu bebezinho e se delicie com todas as fases desta criança.
Mas lembre-se: esta foi uma decisão sua e de seu companheiro! Não coloque nesta criança uma responsabilidade que NÃO é dela e que ela não escolheu.

 Denise Aragão

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