terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Mães de autistas gritam por socorro!

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Foi em 15 de julho último que uma notícia triste e chocante abalou a comunidade autista. Em Campo Mourão, no Paraná, a mãe de um menino de 8 anos, autista, matou o filho e, em seguida, cometeu suicídio.
Nenhuma de nós havia se recomposto quando dois dias depois a mãe de um jovem rapaz de 19 anos, com deficiência mental, matou o filho a golpes de faca e tentou por fim à própria vida.
O golpe de misericórdia veio quando, em um shopping de Aracaju, um menino autista de 12 anos foi abandonado por sua própria mãe.
Não foi por acaso que somente agora decidi escrever a respeito. Estas tragédias me entristeceram de forma desmedida e me enlutaram profundamente, como acredito ter acontecido com todas as mães de pessoas com autismo.
Resolvi deixar passar o impacto dos primeiros momentos para só então me debruçar a escrever sobre o tema da forma mais racional que eu pudesse.
Um mês depois constatei que seria IMPOSSÍVEL (pelo menos para mim!) escrever de forma unicamente racional, deixando de lado a paixão e a emoção que me movem e que são partes intrínsecas de meu ser.
Infelizmente, com uma rápida e superficial pesquisa na internet, encontrei alguns outros casos similares, inclusive em outros países. E, muito provavelmente, deve haver outras dezenas de casos tristes como estes, que acabamos por não tomar conhecimento.
Percebam que estas mulheres foram acometidas pelo mesmo desespero profundo e angústia que levou cada uma delas à privação total de consciência, resultando nos atrozes atos cometidos.
Esta é uma triste constatação do que há muito já sabemos: a saúde mental de mães (e cuidadores de pessoas com autismo em geral) é impactada de forma violenta e esmagadora, por inúmeros motivos, que vão desde a dificuldade de conseguir tratamentos adequados para seus filhos, dificuldades financeiras, até o mais comum e recorrente medo do futuro.
É fato concreto que a maternidade em si está longe de ser uma tarefa das mais fáceis.
Ao contrário, criar e educar um filho demanda tempo, energia, imposição de limites, dinheiro, paciência e muito amor.
E quando a maternidade em questão se refere a uma criança, jovem ou adulto com necessidades especiais (mais especificamente, autismo), esta tarefa não se torna apenas árdua.
Ser mãe de uma pessoa com autismo é uma tarefa hercúlea! Faço esta afirmação com todas as letras, sem receio de estar equivocada.
Conviver diuturnamente com o preconceito e o bullying, enfrentar o desconhecimento e a ignorância da sociedade, lutar para que seu filho/a tenha acesso aos direitos mais básicos e essenciais, conscientizar a própria família, dentre tantas outras demandas, nos torna exauridas e extenuadas.
Se levarmos em conta que este é um estresse que se repete, todos os dias, ao longo de meses e até mesmo anos, teremos estabelecido assim um círculo vicioso ininterrupto e extremamente maléfico à nossa saúde, seja física ou mental.
Mães de autistas são presas fáceis de quadros depressivos, ansiosos, bem como vítimas também da síndrome do pânico. Nos tornamos reféns de nossos próprios receios, deixando-nos guiar pela ansiedade e, muitas vezes, sucumbindo à depressão. Levante a mão quem de nós não sentiu vontade de ficar na cama pela manhã e de só levantar ao fim do dia? Quantas de nós transcorremos o dia rezando para que a noite chegue e com ela carregue aquele dia?
Quantas lágrimas já vertemos por vermos nossos filhos sendo alvo de preconceito e bullying?
Quantas vezes inúmeras escolas “bateram” com as portas em nossas faces, numa demonstração clara de que nossos filhos não eram bem vindos em suas salas de aula?
Será que houve um único dia em que não pensei no que será dele quando eu não mais estiver aqui?
Perdi a conta das vezes em que meu coração “sangrou” até não poder mais e me permiti chorar, de forma compulsiva e desmedida, pensando no futuro de meu filho.
Algum desavisado poderá dizer que é fácil não sermos acometidas por tais mazelas.
Na verdade, este é um assunto que escuto com certa frequência e regularidade e que, admito, me causa repúdio. Muitas mães de autistas se queixam da incompreensão de amigos e, até mesmo, pasmem, familiares.
Pessoas que não conhecem o nosso dia a dia se sentem no direito (inexistente!!!) de acreditar que sabem o que é melhor para nossas vidas, bem como para a vida de nossos filhos. Pensam que estamos sendo fracas e que nos “entregamos” com muita facilidade.
Entretanto, cada vez que julgamos alguém e/ou uma situação que não conhecemos e que não é a nossa realidade, estamos incorrendo em uma chance enorme de sermos injustos, equivocados e errôneos em nosso julgamento.
Conheci uma senhorinha, há muitos anos, cujo filho era deficiente mental. Nesta época, JP ainda não apresentava nenhum sinal de autismo, pois tinha 7 meses e os sintomas começaram a surgir por volta dos 20, 24 meses de idade.
O filho desta senhora faleceu devido a uma complicação respiratória, aos 43 anos.
Ela me contou, tempos depois, que se julgava uma pessoa muito abençoada, pois Deus havia levado seu filho antes de seu falecimento, o que lhe proporcionava tranquilidade para poder partir em paz, sabendo que seu “menino” não dependeria de outras pessoas, não correndo o risco, assim, de ser maltratado. Naquela época, aquela afirmação me causou um grande espanto!
E esta história estava esquecida, em algum canto empoeirado de meu subconsciente, mas emergiu com os acontecimentos recentes. Será que cabia a mim ou a quem quer que fosse julgá-la por tal afirmação naquele momento?
Não me sinto confortável, muito menos no direito de julgar estas mães e seus infelizes atos. Ofereço a elas minhas orações…
É por isso que insisto, de forma veemente, para que seja oferecido, na rede pública de saúde, tratamento terapêutico não apenas para os autistas, mas também a seus cuidadores, que são formados, em sua esmagadora maioria, pelas mães.
A preservação do bem estar da saúde mental das mães é vital e fundamental para o desenvolvimento dos filhos.
Acredito que ambos (mãe e filho) devem ser tratados de forma conjunta, pois são aspectos intrínsecos e faces da mesma moeda.
Espero que as autoridades competentes se convençam da necessidade preemente de oferecer tratamento a estas mães!
A saúde mental das mães de autistas grita por SOCORRO!!!
Que as mortes e o sacrifício destas mães e seus filhos não sejam em vão!

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