terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Eu, autista

"Autism" "Autismo" "papo de mãe" "mãe" "azul"

Não me defina, pois não caibo em palavras;
Definições me aprisionam e me castram,
Da mesma forma que não me encaixo em rótulos.
Ao invés de tentar me definir, tente me amar;
Antes de me julgar, procure me conhecer melhor.
Tenho certeza de que irá se surpreender positivamente com o ser humano doce, sincero e ingênuo que encontrará por trás desta suposta aura de mistério.
Aliás, ao contrário do que muitos pensam, não sou uma esfinge ou um enigma.
Sou apenas uma pessoa, frágil e um tanto assustada, que caiu de “paraquedas” em um mundo inóspito, incompreensível, onde tudo e todos à sua volta lhe despertam, muitas vezes, angústia e receio.
Sou tão simples de ser compreendido!!!
Basta me olhar com os olhos da alma, pois somente um coração é capaz de enxergar outro coração.
Onde muitos apenas veem incapacidade, existe um potencial enorme, ansioso por ser descoberto, em ter uma oportunidade.
Outros me olham e apenas enxergam imperfeição e anormalidade , quando a grande verdade é que, embora eu realmente não pertença àqueles cuja sociedade rotulou “normais”, sou perfeito e belo, em todas as minhas nuances.
É fato que a “sua” verdade, está longe de ser a minha…
Pois vejo com a alma, sinto com o espírito e amo com o coração.
Posso não compreender metáforas, mas sou incapaz de mentir.
Da mesma forma, não possuo o chamado “verniz social” que nada mais é do que uma forma educada que foi encontrada para contar mentiras de forma agradável e polida.
Me acusam de insensível!!!
Mas não sou eu que fecho os olhos ao meu irmão que morre de fome ao meu lado.
Tampouco viro as costas para as mazelas alheias, simplesmente por não serem minhas.
Não sou egocêntrico nem penso que o mundo gira ao redor de mim; apenas tenho dificuldade em interpretar este “mundo” que se mostra tão ambíguo e cruel, insensato e insensível, fazendo com que eu nunca saiba realmente o que esperar dele.
Constantemente, sou tachado de incompreensível;
Acredito que totalmente INCOMPREENSÍVEL é a falta de amor, as brigas, as guerras sem fim onde um ódio irascível se faz presente e constante e onde pais desconhecem filhos, filhos desconhecem pais e irmãos desconhecem irmãos.
Quando, por algum motivo, tenho dificuldades com alguma regra do convívio social, sou julgado e execrado, como se fosse culpado por um crime que JAMAIS cometi.
Percebo os olhares de reprovação e repúdio que muitos dirigem a mim.
Entretanto, aquele que perde tempo julgando o próximo não encontra tempo para amá-lo…
Mas parece que esta lição muitos se recusam a aprender!
As mãos que são usadas para apontar os “erros” alheios poderiam ser muito melhor utilizadas se acolhessem e confortassem seu próximo.
A condescendência e a tolerância que existem para com as outras deficiências são mínimas ou praticamente inexistentes em relação a mim.
Ninguém se aproxima de um deficiente visual e diz a ele: “Vamos, enxergue!”
Da mesma forma, não se exige que uma pessoa paraplégica levante de sua cadeira e ande.
Mas e quanto a mim???
Constantemente sou cobrado para me “adequar”, me encaixar nos “padrões de comportamento da sociedade”.
É como se vocês exigissem que eu fosse “menos autista”…
É claro que tenho uma enorme capacidade de aprendizado, não restam dúvidas a este respeito!!!
Mas existem limites entre o que pode ser modificado e o que não pode ser mudado.
O que peço é apenas, e tão somente, COMPREENSÃO, AMOR, RESPEITO, TOLERÂNCIA e ACEITAÇÃO!
Sentimentos obrigatórios para a existência humana, mas que parecem esquecidos, engavetados e abandonados em algum “sótão” do inconsciente coletivo.
Repito: não sou um mistério!!!
Entretanto, este “mundo” cruel e seus valores equivocados são o verdadeiro enigma a ser decifrado.

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